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domingo, 19 de fevereiro de 2017

Carnaval sem Apartheid / Fábio de Carvalho Maranhão

VIII

Eu nunca quis compor samba em homenagem a malandro nem pra gente metida a socialight. É que gente com característica de ser o que não é estar cheio por aí. É comum a gente encontrar, por exemplo, aqueles e aquelas que não querem se misturar com a "gentalha", pois para eles, quem tem sangue nobre deve preservar a linhagem, até quando se trata de uma festa carnavalesca estilo baile municipal. Geralmente, essa gente metida a besta, procura não perder um evento como este por nada, pois deixar passar uma oportunidade como esta é o mesmo que atirar no próprio pé e assinar declaração de membro da classe C, D e E. Eu dou rizada quando vejo essas pessoas achando que tem sangue azul e quase flutuam quando caminham, pois quase não pisam no chão. Ainda arrisco dizer que, boa parte dessa corja "ricaça sem ser" são míopes e tem problema de torcicolo permanente, pois não olham do lado quando passam pela gentalha nas ruas. Essas pessoas juram, sempre, que além de pertencer a dita "sociedade" do ponto de vista do capital e da educação burguesa, são inteligentes e bem articulados. Claro que cada palavra dessa cabe como adjetivo para toda pessoa sem exclusão, mas o sentido aqui é outro, e já estar claro como a roupa de uma madame que me inspirou essa crônica no último baile municipal realizado em Cortês. A fantasia, afirmo, tratou-se, na ocasião, de um uniforme branco. Não denunciarei para não desvendar nem atropelar algum pormenor que mereça a interpretação única de cada leitor e leitora.

Na última noite de sexta-feira (17), eu vibrei quando vi aquela senhora de meia idade, de natureza humilde, indo se misturar com o pessoal do baile. Antes disso, presenciei a soberba de um grupo fantasiado, achando que iriam para a posse de Donald Trump, sem perceber que seriam hostilizados por serem latinos. Mas o mais chocante, foi ter passado por dois conhecidos, que juravam ser em pessoa, Adão e Eva indo para o paraíso sem precisar pagar o dízimo e ofertas através de depósitos bancários. Não me cumprimentaram mesmo eu tendo quase quebrado o pescoço ao olhar para eles para não ser indelicado. Caminhavam como se fossem eles, o casal mais esperado do baile, e por consequência, os mais odiados, pois como sempre falo, onde há sucesso lá estar a inveja. Mas o sucesso deles e de tantos outros são regados a enormes doses de ilusão misturada com sonho, e isto só reforça a teoria do pertencimento a sociedade, que muitos não abrem mão de pertencer, mesmo sem ter seu deus em abundância: o dinheiro, nem o conhecimento que emancipa.

Caminhei para casa e liguei para um amigo, que por sinal, estava pronto para ir ao baile, e que na hora da minha ligação, já declarou de pronto que estava ansioso para vê toda aquela mistura de ébrios, gente humilde, classe "A" e tudo o que mais era de imprevisível.

___ Quais as tuas expectativas, Martins?
___ Todas, meu bom amigo!
___ Tem alguma específica?
___ Sim! A baba já estar até caindo.
___ Qual é?
___ Vê a cara daquelas senhoras "ricas" no nosso meio. Imagina só: a cara da riqueza com a cara da gentalha numa festa só.
___ Para quem pensa que dinheiro é tudo, será o fim da picada.
___ Lembrei-me daquela madame, quando uma vez, deu um discurso odioso e cheio de preconceito. Falou na cara da minha irmã que a confraternização da empresa seria dividida em duas.
___ E aconteceu?
___ Sim. Um dia foi da turma do serviço pesado, no outro, do pessoal da linha de frente. Acredita que ela teve a ousadia de dizer na maior cara de pau que festa do segundo escalão tem que ser entre eles, e desejou em si própria uma dor de barriga para ter a desculpa de não comparecer. Ela sendo gerente, não poderia faltar. Já pensasse?!
___ E no baile de hoje, essa madame, certamente irá, não é?
___ Já estar lá, meu amigo. E eu vou fazer questão de cumprimenta-la com a mão direita, molhada de wisk. Andes de oferecer-lhe minha garra direita, vou tossir umas dez vezes na mão na sua frente, e esperar sua reação.
___ Vejo que o amigo estar disposto a tirar o atraso.
___ Não é bem isso. O fato é que se ela tem raiva de pobre, e não aguentar minha inconveniência regada a vírus de tosse, que vá curtir outro baile com a socialight.
___ Você me faz rir e chorar de tanto rir Martins.
___ Mas é fato o que declaro ao amigo. Eu jamais me imaginaria nesse baile municipal de carnaval sem oferecer uma mão para quem anda com álcool gel na bolsa para desinfetar as mãos após cumprimentar gente pobre feito nós. Sabe o Tobias, aquele meu vizinho?
___ Sei.
___ Acebei de pagá-lo adiantado para ele realizar um serviço interessante. Ele vai filmar esse movimento todo, até o momento em que ela sacar da sua bolsa de 18 reais comprada na 25 de março e tirar o álcool gel para limpar as mãos. Solicitei no mínimo três flagrantes.
___ Esquece essa ideia, Martins.
___ Esquecer? Jamé!!!
___ Mata-me de rir! Mas me fala uma coisa: Você vai de cara limpa? E se a megera te conhecer e depois querer planejar vingança?
___ Ela não vai me conhecer, Nascimento!
___ Não?
___ Não, pois vou fazer jus a Noite dos Mascarados.
___ Ideia boa. Mas toma cuidado pra não se apaixonar viu!
___ Que ideia!
___ Vai que a ilusão da música de Francisco te pega e você muda de ideia, e ao invés de golpeá-la, você leve uma rasteira das próprias pernas.
___ Melhor esquecer isso e ficar na torcida, Nascimento.
___ E esse vídeo, o que  vai fazer com ele?
___ Sei lá. Por hora vou colocar no mau arquivo. Depois penso melhor.
___ Então boa sorte. E cuida pra não beber demais.
___ Deixa comigo.
___ Boa noite, Martins!
___ Boa, Nascimento.

Quando desliguei o telefone, me veio de súbito uma vontade de ir àquele baile só pra vê a cara da riqueza misturada com meus parceiros e minhas parceiras. Uma máscara resolveria meu problema. Se bem que para muita gente, a máscara já vem de fábrica, e sem censura, se enquadra com o perfil da megera, que em nome do sangue da nobreza, humilha e descrimina os pobres pela condição social.

Bendito carnaval, que coloca todo mundo em um balaio só, e desfigura ao menos momentaneamente, a hipocrisia do apartheid social, que a maioria do povo nega existir.

Quatro horas da manhã, no auge do sono profundo, o telefone vibra emitindo alerta de chamada. Era Martins, bêbado e feliz.

___ Fala seu vigarista! Isso são horas de ligar para um pai de família morto de sono?
___ Nascimento, me deixa falar... Você não imagina!
___ Eu? Imagino sim. Você nem imagina como eu imagino.
___ Olha, tenho novidades viu.
___ E o plano deu certo?
___ Qual plano?
___ A vingança contra a megera.
___ Sim. Só liguei pra te dizer que quando passar minha ressaca eu te conto tudo.
___ Vai dormir, Martins.
___ Já estou deitado.
___ Olha, ao menos me fala uma coisa: com quantos foliões se faz um baile carnavalesco?
___ Com quantos eu não sei, mas graças a Deus que não fizeram camarote. (ou fizeram?)
___ Fizeram ou não?
___ Sabe que agora fiquei na dúvida? É que eu estou muito bêbado.
___ Vai dormir, Martins. Quando acordar me telefona.
___ Melhor. Se eu esquecer você liga. Tenho novidades...

Fábio de Carvalho [Maranhão]

19/02/2017, 19h30min - 20h26min- Domingo, Cortês-PE. Escritório de Trabalho [Biblioteca Particular].


Foto: Fábio de Carvalho - Acervo Pessoal / 02/2013

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